quinta-feira, 18 de junho de 2009

Solidão - Rubem Alves

"A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão... O que mais você deseja é não estar em solidão...
Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música... Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa... Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão... A noite estava perdida".

  • “Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.!"

Eu não sei nada - Viana

"Eu não vim até aqui te divertir;
Se me divirto, de algo já valeu.
Não vim dançar, sorrir, te tratar bem,
Lutar por algo que já não é meu.
Eu sei do tempo, conheço seus danos.
No que eu fui, no que eu não pude ser,
Nos meus acertos e nos desenganos,
Do que eu sei, nada serve pra você.
E eu só quero dizer
Que eu não sei nada de você;
E eu só quero dizer
Não sei muito de mim também.
Os dedos que apontam rumos,
Senhores, juízes do valor,
Não são os meus, eu já não julgo;
Não estou na sua pele, sua dor.
Eu sei do tempo, conheço seus danos,
No que eu fui, no que eu não pude ser,
Nos meus acertos e nos desenganos,
Do que eu sei, nada serve pra você.
E eu só quero dizer
Que eu não sei nada de você,
E eu só quero dizer
Não sei muito de mim também".

O Amor Fino - Antônio Vieira

"Ora vede: Definindo S. Bernardo o amor fino, diz assim: Amor non quaerit causam, nec fructum: “O amor fino não busca causa nem fruto”. Se amo, porque me amam, tem o amor causa; se amo, para que me amem, tem fruto: o amor fino não há de ter por quê nem para quê. Se amo por que me amam, é obrigação, faço o que devo; se amo para que me amem, é negociação, busco o que desejo. Pois como há de amar o amor para ser fino? Amo, quia amo, como ut amem: amo, porque amo, e amo para amar. Quem ama porque o amam, é agradecido; quem ama, para que o amem, é interesseiro; quem ama, não porque o amam, nem para que o amem, esse só é fino".

O Amor e a Razão - Antônio Vieira

"Pinta-se o amor sempre menino, porque ainda que passe dos sete anos [...] nunca chega à idade de uso da razão. Usar de razão e amar são duas coisas que não se juntam. A alma de um menino que vem a ser? Uma vontade com afetos e um entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo con-quista o amor, quando conquista uma alma; porém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade febricitan-te, que não tivesse o entendimento frenético. O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não ce-gasse o entendimento. Nunca houve enfermidade no coração, que não houvesse fraqueza no juízo".